terça-feira, 13 de setembro de 2011

Carta para tia Ná



Querida tia Ná,

Há 7 meses vocês notaram que alguma coisa estava vindo ao mundo para alegrar ainda mais a vida de todos e que mudaria, e muito, alguns princípios, alguns valores e até algumas vidas.
Pois é, eu estou crescendo e depois daquele dia vinte e sete de fevereiro minha evolução foi grande. A cada momento mais pessoas conseguiam sentir a minha presença e eu me tornava cada dia mais real na vida de todos. Senti que demorou um pouco para mamãe perceber que eu realmente estava ali. E o Papai? Ele não conseguia acreditar que em breve eu estaria ali na casa, alegrando seu dia-a-dia, jogando futebol com ele, curtindo um vídeo game, soltando pipa, correndo de bicicleta, escondendo dele na hora dele chegar.
É, tia Ná! Eu estou quase chegando!
Até hoje eu lembro da grande emoção que foi quando vocês ficaram sabendo da minha existência e vejo quanta evolução e revolução causei na vida de todos. Lembro-me dos meus primeiros movimentos que mamãe sentiu, emocionou muito ao papai. Vi também o melhor presente que mamãe poderia ganhar no seu aniversário, quando descobriu que poderia me chamar pelo nome de Lorenzo e papai confirmou o que ele tanto desejava, um menininho para brincar com ele.
Sei da minha “responsabilidade” neste mundo onde estou chegando, serei muito feliz e farei a felicidade de muita gente. Vejo hoje a empolgação de vocês em arrumar o meu quartinho, em comprar meus primeiros pertences, minhas roupas, meus sapatos, meus bichinhos. Na preocupação da decoração do meu quarto, com o meu conforto e também com a minha chegada, pois bem que sei, mamãe é um tanto quanto desajeitada, e vai ter um pouco de medo de ficar comigo sozinha, pelo menos no começo. Fiquei muito feliz quando deu certo da gente mudar pra perto da casa da vovó, pois ficará bem mais fácil para mamãe cuidar de mim com a ajuda dela.
Adorei o álbum que você me deu, os desenhos da priminha Lara, o carinho da madrinha Nessa e do padrinho Fernando, o cuidado dos vovôs, a preocupação e os presentes das vovós, o presente das titias.
Fiquei muito orgulhoso também da minha primeira festinha, o Baby Bingo. Não vejo a hora de ver aquele monte de gente reunido só para celebrar a minha chegada, em grande estilo. Vai ser uma festa de arromba!
Então, tia Ná! Ontem fiz a minha primeira façanha! Escondi da médica na hora de ouvir meu coraçãozinho. Ela disse que ia me dar umas palmadas, e que estava tudo bem comigo. Mamãe sabe que estou bem, pois brinco bastante na sua barriga. Papai, todas as vezes que me vê mexendo, fica super emocionado. Mas, eu sou espertinho, e não é pra todo mundo que eu me exibo não. Pra você é um caso. Ainda não dei o ar da graça de me mexer quando você coloca a mão sobre mim. Porém, Tia Ná, não se preocupe. Estou chegando e vocês poderão ficar comigo face to face e não terá jeito d’eu me esconder mais.
É, aqui dentro está ficando apertado. Meus movimentos estão cada vez mais percebíveis a olho nu e mamãe adora ficar um bom tempo me observando a fazer morrinhos na sua barriga. Sei que cada momento é único e muito emocionante, e que minha hora está chegando. Ficarei aqui por mais alguns dias, não falo em meses, pois não dá mais para ficar nem 2 meses. Mas ficarei o tempo suficiente para me formar direitinho e dar a alegria de nascer um menino lindo e saudável para que todos possam me curtir aí, do lado de fora, melhor do que estão me curtindo aqui do lado de dentro.
Aguarde! Estou chegando em breve!
Amo vocês todos!
Beijos, Lorenzo!

quarta-feira, 9 de março de 2011

Elefantes de circo

Quando eu era pequeno adorava o circo e, por isso mesmo, nunca perdia uma única ida deste fantástico mundo á minha cidade.

Uma das coisas que, desde muito pequeno me intrigou foi que, os elefantes, enormes, estavam sempre presos por uma pata a uma pequena e insignificante estaca de madeira.
Claramente, o elefante poderia, em qualquer altura que quisesse, puxar a estaca com toda a facilidade e fugir dali para fora; no entanto, não o fazia.
Porquê?
Finalmente, numa das minhas muitas idas ao circo, recebi resposta de um dos tratadores.
O elefante era levado para o circo ainda bebê, e preso com uma estaca pequena de madeira.
Ora, nessa altura o elefante não tinha muita força, e as suas tentativas iniciais de puxar a estaca e fugir eram sempre em vão; assim sendo, a certa altura o elefante deixava de puxar: resignava-se.
E resignava-se de tal modo que, passado anos, quando já era enorme e forte, continuava convencido de que a estaca que o prendia era mais forte e que ele nem sequer se dignava a tentar outra vez, não fazendo sequer ideia da surpresa que teria se tentasse uma vez mais.

Esta história fez-me pensar, acerca da resignação das pessoas, do inconformismo.
Quantas estacas haverão na nossa vida e na nossa sociedade que islusóriamente nos prendem, porque simplesmente, a certa altura, deixamos de tentar?
E, por sua vez, que surpresas não teríamos nós se, um dia, decidíssemos tentar só mais uma vez?

Muitas vezes não vemos a força que cada um de nós transporta. Ficaríamos admirados e ficamos sempre quando vemos que somos mais fortes do que o julgamos.
Mas o meu espanto entra aí: quando reparamos que somos mais fortes, porque é que não tentamos sempre retirar essas estacas?
E porque é, que cada vez que retiramos ficamos sempre tão admirados?
É...achamo-nos muito espertos e senhores dos nossos narizes, mas no fundo não passamos de pequenos (ou grandes) e ingenuos elefantes do circo.

terça-feira, 1 de março de 2011

Uma vida!

Ela estava receosa. Na última semana tinha feito as contas no calendário, dia a dia e chegou à conclusão que estava preocupada sem motivo.

Uma semana depois e nada acontece. Chegando no último dia previsto, nada. Aí caiu em desconfiança. Havia ali a presença de alguma coisa que causava susto, que fazia o coração tiritar, as mãos ficarem suadas. Era necessário a confirmação.

Ao sair do trabalho, por sinal em horário nada convencional, passou por uma farmácia e solicitou o teste que confirmaria tanta sofreguidão. Quando solicitado ao balconista, foram demonstrados vários, porém ela necessitava somente de um. Um único que confirmaria a suspeita. Escolheu. Chegou em casa e leu, afinal, tudo era novidade. Esperou até o primeiro xixi do dia. Nunca uma noite fora tão longa quanto aquela. Aguardando o armazenamento do liquido necessário para a confirmação do desespero.

No outro dia, acordou, olhou para o lado e nem sinal de alguém acordado. Levantou-se e seguiu até o banheiro. Lá dizia que não era necessário colher a urina, mas mesmo assim isto foi feito. Vai que a quantidade que molha aquela mísera fitinha não é necessária para percorrer todo o caminho até o resultado? Preferiu não arriscar. Agiu da melhor forma para obter um resultado sem hesitação.

O líquido percorreu aquela fita chegando à janelinha do resultado. Pintou a primeira linha. Clara, muito clara e fina. Ao recorrer a bula estava indicando: “Mesmo que uma das linhas for muito clara, o resultado é positivo”. Bom, até então, nada tinha se confirmado. Aguardou mais alguns segundos enquanto o líquido avançava. E mais uma linha foi pintada. Desta vez mais escura, totalmente nítida. Era a confirmação do que a remetia ao medo.

Daí o coração disparou. As mãos começaram a tremer, veio um sentimento lá do fundo que nunca tinha passado por seu corpo, por sua mente. Algo estranho, alheio, esquivo, difícil de descrever. Inexplicável. Não sabia se era bom ou ruim tudo aquilo. Era medo.

Agora era necessário tornar público, afinal o acontecido traria muita alegria para muitas pessoas. Não era uma coisa para se curtir solitariamente.

Quando retornou ao seu repouso, ele estava acordado. Foi então que teve a idéia de ter vontade de churrasco. Sugeriu que fizessem um e então chamassem todos, os pais dela e os pais dele, juntamente com todos os cunhados. Seria muito mais legal se todos soubessem ao mesmo tempo.

Alguém precisava saber antes de todo mundo, pois ficaria responsável por registrar o momento. Encontrou-se com sua cunhada, Michelle, e contou a ela no meio da rua, no movimento do centro, junto à multidão. Sua alegria foi evidente. Muito emocionante. Porém tinham que se conter, pois o personagem principal de todo o conto estava a aproximar-se.

Tudo combinado.

Não foi possível completar o plano sozinha. Teve que pedir arrego. Um torpedo e pronto. Problema resolvido. “Mi, daria para você comprar o sapatinho para mim?”

No outro dia, tudo conspirava a favor. Nenhuma desconfiança, tudo correndo como previsto. Um almoço normal, como outro qualquer que teriam feito com a família.

Seu irmão não chegava, o tempo foi passando e a agonia foi aumentando.

Até que tomou a decisão: “Vou lá pegar”. Michelle se preparou. Ela desceu com a caixa. Era azul e tinha laço de fita. Todos ficaram olhando, porém nenhuma pergunta.

Quando deram a deixa, pronunciou-se:

- “Tenho um presente para você!”

- “Presente? Pra mim? Por que?”

Com coisa que para se dar ou ganhar presente precisa ter algum motivo especial. Este era um momento especial e único, para todos ali reunidos.

Foi quando abriu a caixa e inerte ao que encontrou não se conteve. O choro foi inevitável, a emoção foi incomensurável. Todos olhando aquela cena solicitaram: “O que é? Mostra pra gente! Fala logo!!!”.

E ele, sem nada dizer, levantou: um sapatinho.

Era a notícia de que sua família estava aumentando, que Deus estava proporcionando a eles um presente dos mais belos que Ele dá a uma mulher e a um homem: um filho, uma vida.

Foi emocionante.